Amar a Deus (sobre todas as coisas)
“Sinceramente, se nesse momento
colocassem Deus na ponta de uma mesa e minha faculdade na outra na outra e me
mandassem escolher um só, por mais absurdo que pareça, nesse exato momento eu
não sei o que eu escolheria. É óbvio que, pela lógica, eu deveria dizer que
escolho Deus sem pestanejar, mas parte de mim ficaria com muita raiva, porque
eu realmente me esforcei para conseguir a vaga na faculdade. Não seria justo
Ele me dar isso e então tirar de mim só para me dar uma lição”.
Disse isso a um amigo enquanto
tínhamos uma conversa. Falávamos sobre como eu estava passando por um deserto
aparentemente interminável e bastante doloroso. Meu amigo havia saído de uma
situação como essa tempos antes, então estava apto a me aconselhar (coisa que
ele sempre fez). Eu fiz a seguinte pergunta: “Até quando esse deserto vai
durar?” ao que ele respondeu: “Até que você entenda que tudo de que você
precisa é Deus e nada mais”. Senti raiva, muita raiva. Detestava quando as
pessoas atribuíam os meus problemas a possíveis lições que Deus estava querendo
me dar. Odiava quando diziam que Ele sente o meu sofrimento e que está fazendo
isso pelo meu bem. Simplesmente porque, aos meus olhos, não fazia sentido
algum.
Ora, se Ele quer me ensinar alguma
coisa não pode usar trezentos outros meios para isso? Se Ele também está
sofrendo com essa situação, se dói em Seu coração ver a dor do meu e se Ele
sente tanta falta da minha companhia quanto eu sinto da Dele (ou ainda mais do
que eu sinto), então por que Ele faz isso consigo mesmo? Conosco? Isso sempre
soou um tanto sádico para mim, bastante estranho vindo de um deus de Amor. Foi
quando meu amigo começou a falar para mim sobre Abraão, sobre o modo como ele
confiou em Deus e abriu mão até mesmo de seu filho querido para Deus. Aí fiquei
ainda mais irritada.
Abraão recebeu do próprio Deus a
promessa deque ganharia um filho. Foram anos de dúvidas, medos, incertezas e
tropeços até que a promessa se cumprisse. Quando Abraão finalmente recebe seu
filho, ouve de Deus um pedido assim, bastante comum, bastante sensato: “Mate
seu filho como sacrifício para mim”. Eu não faço ideia do que se passou pela
cabeça e pelo coração de Abraão naquele momento, mas tenho quase certeza de
que, em algum cantinho lá no fundo do seu coração, ele pensou, mesmo que por apenas
um segundo: “Você está de brincadeira Deus?”.
Foi nesse momento que algo me
ocorreu. Foi pensando nisso que, aquilo que meu amigo estava tentando enfiar na
minha cabeça, finalmente fez sentido para mim: o que Deus fez com Abraão não
foi nenhum tipo de jogo sádico doentio como sempre pensei, mas uma prova de
carinho. Por mais estranho que pareça, foi uma manifestação do cuidado de Deus.
Agora me deixe explicar o porquê:
Se amarmos as coisas que Deus nos
dá mais do que amamos a Ele, estaremos, basicamente, ferrados. O Senhor dá e o
Senhor tira, isto é, Ele tem todo o direito de nos dar uma coisa e depois tomar
de volta, bem como podemos perder as coisas em tragédias e fatalidades. Deus
pediu para que Abraão matasse seu filho, mas mesmo que Deus nunca tivesse feito
esse pedido, ainda havia a possibilidade de um dia Isaque estar pastoreando as
ovelhas e, ao começar uma forte chuva, ele ser atingido por um raio. Ainda
havia assassinos, desabamentos, animais selvagens, etc. O ponto é: se Abrão
amasse mais a Isaque do que a Deus e um dia Isaque fosse tirado dele, o que
aconteceria com Abraão? Resposta: ele perderia aquilo que mais amava, e essa
seria sua ruína.
Se um belo dia Deus ou alguma outra
cosia tirar de nós algo que amamos acima de Deus, estaremos perdidos, pois
estaremos perdendo aquilo que mais tem valor na nossa vida. A atitude de Abraão
é um exemplo a ser seguido. Ao invés de desobedecer e dar um chilique; no lugar
de bater o pé no chão e dizer: “Eu me recuso terminantemente a fazer isso!”;
ele fez uma escolha. Ele escolheu amar a Deus acima do filho que Deus havia lhe
dado. O mais interessante é perceber que, depois de reconhecer a obediência e o
amor de Abraão, Deus disse para ele não matar seu filho. Abraão não chegou a
perder Isaque, mas ele estava disposto a perder. Entre Deus e seu filho, Abraão
escolheu Deus (assim como, entre nós e Seu Filho, Deus escolheu a nós).
Isaque não foi um ídolo na vida de
Abraão, mas muitos “Isaques” podem se tornar nossos ídolos. O ídolo é tudo
aquilo que eu coloco no lugar de Deus, tudo aquilo (ou aqueles) que eu amo mais
ou valorizo mais do que a Deus. Geralmente são esses ídolos que nos levam a
ruína porque se baseamos a nossa felicidade e, pior ainda, a nossa identidade,
em coisas e pessoas (que a qualquer momento podem escapar de nossas mãos) então
nossa base é tudo menos sólida (ou seja, está fadada a ruir e, quando o fizer,
nos levará junto, nos jogará no chão, nos destruirá). Conversando com meu
amigo, Deus me fez enxergar que, naquele momento, minha faculdade se fazia de
ídolo na minha vida.
Eu queria muito aquela vaga, céus,
como queria. A melhor faculdade de comunicação do país, a faculdade dos sonhos.
Milagrosamente, consegui uma vaga. Digo milagrosamente porque, ao contrário dos
outros vestibulares que fiz, nos quais tive terríveis crises de ansiedade, essa
prova eu fiz em paz. A minha nota foi altamente satisfatória e pude ver
claramente um cuidado de Deus em toda essa situação. Mas precisava de um
emprego para poder pagar a mensalidade. Isso vinha tomando minha paz durante
semanas e não poucas vezes pensei que Deus estaria me privando de conseguir um
emprego, pois não estava confiando Nele ou algo do tipo. Eu sentia que havia
algo errado, mas não sabia o que era. Então Ele me mostrou.
O que costuma “ativar” a nossa tristeza
geralmente pode apontar para aquilo que está sendo um ídolo em nossas vidas.
Pensando nisso, vejo que sempre que pensava na faculdade ou em encontrar um
trabalho, imediatamente me enchia de tristeza e ansiedade. Meu amigo disse
“Júlia, você tem que estar disposta abrir mão de sua faculdade para ter Deus.
Tem que abrir mão de tudo o que é importante para ter só Ele.”. Minha vontade
era dar uma resposta bem feia. “Deus” eu murmurei “Eu não quero abrir mão da
minha faculdade. Mas também não quero fazer isso só para, assim como Abraão,
ouvir de você que posso ficar com ela. Eu quero você, mas também quero a
faculdade.”. E aí Ele me fez entender que não estava me pedindo a faculdade por
maldade e sim por que estava preocupado comigo.
É lindo não é? Quer dizer, Ele não
quer tirar as coisas de nós para nos fazer sofrer, mas sim porque sabe que, se
perdermos essas coisas amando-as mais do que a Ele, corremos o risco de nos
perder. Ele quer que nós o amemos cima de tudo porque Ele nós jamais iremos
perder. Por mais maluco que pareça, o único mandamento que Ele nos deixou é
muito mais que uma ordem, é uma manifestação de carinho e cuidado. “Amar a Deus
sobre todas as coisas”, disse Jesus. “Amar a Deus com todo seu coração, toda
sua alma e todo seu entendimento”. Não é sobre a faculdade, não é sobre Isaque
ou qualquer outra coisa. São apenas coisas! É sobre um Deus que me ama e cuida
de mim constantemente. É amar Aquele que sempre estará conosco, Aquele que de
quem jamais seremos tirados e que nunca ninguém tirará de nós! (Romanos 8:35-39)
Eu O imagino, fico imaginando as
reações Dele diante das minhas atitudes. O imagino plantando aquele incômodo no
meu coração, aquela alfinetada, tentando me alertar de que havia coisas que
precisavam ser mudadas para não obstruir o nosso relacionamento. Imagino Ele
sorrindo quando eu orei dizendo “Afaste de mim as coisas que me afastam de
você”. E imagino Ele dizendo “Calma minha filha, não é por maldade, não sou
cruel nem injusto, eu só estou tentando impedir que você se machuque” enquanto
eu esperneava e chorava, acusando-O de não me amar mais, de ter me abandonado,
de estar jogando comigo, de estar me punindo pela minha falta de confiança.
Quando Ele abriu meus olhos (e meu coração) para a realidade
de Seu cuidado, abri um sorriso em retribuição. Um sorriso lindo, radiante,
sentindo um afago na alma. “Finalmente você entendeu” escutei-O dizer ao meu
coração “Finalmente entendeu que eu estava fazendo isso pelo seu bem.” E podia
ser diferente? Um Deus cuja essência é o próprio Amor, poderia tomar atitudes
que fossem movidas por outra coisa que não fosse amor? Tudo o que Ele faz é por
nos amar, é para o nosso próprio bem, mesmo as correções e punições, mesmo
aquilo que parece injusto e doloroso demais. É sobre amor, é sobre um Deus que
me ama acima de tudo. Não há nada mais justo do que, em troca, amá-Lo sobre
todas as coisas também, abrindo mão do que for
preciso, quebrando todos os ídolos, sacrificando todos meus Isaques.
“E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e
grande mandamento.” Mateus 22:37-38

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